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Passatempos

Simples:

“Devemos minar, de forma delicada e subtil, a própria ideia de que a verdade e os factos são possíveis. Quando as pessoas passarem a duvidar da verdade de tudo, todo o tipo de coisas ficará ao nosso alcance.”
― Philip Pullman

Recuso-me a aceitar que as tretas se espalhem sem oposição só porque dá mais trabalho combatê-las. Podes citar-me.

Banda desenhada da Sketchplanations "The BS asymmetry principle": a energia necessária para refutar uma treta é uma ordem de grandeza maior do que a necessária para a produzir. Um boneco aposta que a Lua é feita de queijo, com uma barra de esforço minúscula. O outro responde com análise espectrográfica, cálculos de órbitas e uma viagem de foguetão, com uma barra de esforço enorme. O primeiro responde: "Hm, pois… continuo a achar que é queijo." Nota de rodapé: também conhecida como lei de Brandolini.

Mitos Globais

Mito#01

Popper nunca acreditou em nada parecido com o que isto sugere.

Ele escreveu:

“I do not imply, for instance, that we should always suppress the utterance of intolerant philosophies; as long as we can counter them by rational argument and keep them in check by public opinion, suppression would certainly be unwise.”

(“Não quero com isto dizer, por exemplo, que devamos sempre suprimir a expressão de filosofias intolerantes; enquanto as pudermos contrariar com argumentos racionais e mantê-las em xeque pela opinião pública, a supressão seria certamente imprudente.”)

Isto não é nenhuma justificação para leis contra o discurso de ódio. Pelo contrário, Popper parece ter chamado a essas leis “imprudentes”.

Para Popper, a intolerância não deve ser usada quando a expressão de ideias intolerantes nos deixa desconfortáveis, quando essas ideias parecem mal-educadas ou quando nos deixam mesmo furiosos. A intolerância – se é essa a palavra certa – só se justifica quando já estamos perante “punhos e pistolas”, ou, presumivelmente, pior.

Sabemos isto não só por uma leitura atenta das passagens que citei, mas também olhando para “A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos” de forma mais ampla. O livro inteiro é uma exposição de ideias intolerantes, uma dissecação delas e uma defesa continuada e fundamentada do pluralismo. Aqui Popper mostrou ser liberal; o seu primeiro recurso foi apresentar um argumento racional. Só numa nota de rodapé considerou a possibilidade de usar a violência, e fê-lo com evidente desdém.

Para aprofundar o tema, lê este artigo.

Mito#02

O mais estúpido: a Terra plana

Deixei este aqui só para ter um sítio onde ir buscar este meme quando precisar dele.

Mitos Portugueses

Mito#03

"Citação" enganadora

Esta citação não está correta, “curiosamente” a correta altera bastante a perceção de “visionário”:

“Sem o Ultramar em poucas décadas estamos reduzidos à indigência, ou seja, à caridade das nações ricas, pelo que é ridículo continuar a falar de independência nacional. Para uma nação que estava em vésperas de se transformar numa pequena Suíça, a revolução foi o princípio do fim. Restam-nos o sol, o turismo, a pobreza crónica e as divisas da emigração, mas só enquanto durarem.

As matérias-primas vamos agora adquiri-las às potências que delas se apossaram, ao preço que os lautos vendedores houverem por bem fixar. Tal é o preço por que os Portugueses terão de pagar as suas ilusões de Liberdade!”

(conversa transcrita por Joaquim Veríssimo Serrão, em “Marcello Caetano - Confidências no Exílio”, Lisboa: Editorial Verbo, 1985, página 208 - ver imagens abaixo).

Sobre a parte “apócrifa” da citação, não há nenhuma referência real de que Marcello tenha dito isto. Pelo estilo, pouco consistente com o que escrevia, considera-se pouco provável. É provavelmente uma adição posterior. A maior parte de quem tenta “credibilizá-la” indica o livro “As minhas memórias de Salazar, 1977” como referência, mas não está lá essa frase.

  • Capa, lombada e contracapa do livro "Marcello Caetano – Confidências no Exílio", de Joaquim Veríssimo Serrão, edição Verbo.
  • Páginas 206 e 207 de "Confidências no Exílio".
  • Páginas 208 e 209 de "Confidências no Exílio"; no topo da página 208, a citação: "Sem o Ultramar estamos reduzidos à indigência, ou seja, à caridade das nações ricas…".